Já se gastaram rios de tinta e papel em provas e contraprovas da existência ou resistência da idéia de BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China como “próximos gigantes” no desenvolvimento econômico do mundo), mais uma "buzzword" ou imagem da moda, ícone sob a forma de sigla que aparentemente facilita o planejamento e a tomada de decisões em um complexo contexto de incertezas conectadas.
Outro dos ícones da simplicidade na gestão dos sistemas de informação e de risco que floresceu nos últimos anos é a inagem do "descolamento" ("decoupling"), que seria a certeza já comprovada pelos dados mais recentes que países periféricos e muito populosos resistiriam à crise global e assumiriam a liderança de uma recuperação precoce.
Houve também frenesi com “desregulamentação”, praga que que levou, em alguns casos na América Latina, a uma oscilação do pêndulo, que retornou com tudo a políticas igualmente emocionais e simplistas de hiper-regulação, Estatolatria e anomia institucional.
O vazio de ideologias, utópicas ou pragmáticas, por vezes abre espaço para o apaziguamento da vontade de mudar, evoluir e enfrentar a sombra ameaçadora de incerteza apenas tenuemente iluminada pela compreensão coletiva e colaborativa dos desafios e métodos para enfrentá-la.
O desafio da nova era de desenvolvimento mediado por ícones digitais volta-se para a criação, a gestão e o desenvolvimento de infra-estrutura eletrônica ademais compatível com um desenvolvimento humano sustentável, emancipatorio e inovador.
Tirar o “B” de BRICs, por exemplo, é um exercício esclarecedor, na medida em que uma das mais notáveis diferenças entre Brasil e os Estados-Nação ligados a Ásia resulta da relação totalmente diferente com temas-tabu como direitos de exclusividade territoriais, sobre recursos naturais e o protagonismo de prioridades militares na história das agendas públicas entre a família Latina (não obstante dramáticas guerras regionais, incursões revolucionárias e contra-revolucionarias, ambições nucleares e espaciais, sobre o controle da água e do petróleo, nacionalismos que prevaleceram muitas vezes em conluio com ambições de natureza militar).
Exceto para o conflito Bolivariano ocasional e um eventual calote no BNDES na América Latina, não há nada remotamente comparável nas agendas da América Latina e Brasil à geopolítica dos gasodutos entre a União Européia e a Rússia.
Há tragédia social na história latino-americana e brasileira, heterogeneidade estrutural e desigualdades atrozes na distribuição de renda, mas nada no Brasil se compara à escala, extensão e intensidade da opressão social que afeta a mão de obra chinesa e a indiana que, de fato, constituem uma insustentável força competitiva apenas parcialmente correspondida por esforços ocidentais em radicalizar a desregulamentação e liberalização do mercado de trabalho, liberar com mais rapidez as certidões ambientais ou facilitar no campo fiscal e financeiro para salvaguardar a competitividade das empresas locais),
Os modelos sócio-políticos e institucionais assim como a situação étnica na Índia é bem diferente da que prevalece na China e compará-las em uma mesma escala (o caso de BRICs) também não é correto. A ”Opressão Social” na índia vem de um sistema de castas piramidal ao invés de um modelo burocrático e militar de segregação social e controle étnico como na China.
Comparado com o perfil latino, mais especificamente com a “mistura” Brasileira, torna-se claro que nossas violência social e institucional é muito mais simpática à evolução de mediações criativas entre etnias, localidades e confissões.
Filósofos sociais e artistas como as Gilberto Freyre, Mario de Andrade e Sergio Buarque de Holanda já analisaram e documentaram amplamente a variedade de apropriações disciplinares(e muitas vezes anárquicas ou tropicalistas) da ordem e do progresso na história brasileira.Talvez nesta matriz humana aberta, diversa e interativa resida a própria fundação para a impressionante expansão e apropriação da internet, do celular e da televisão no Brasil, assim formando uma "super-e-strutura" ou iconomia cultural associada a flexibilidade, criatividade e com(paixão) no Brasil e na America Latina.
Como dizia Sergio Buarque de Holanda (um nome em si mesmo europeu), a mistura brasileira está na raiz de uma humanidade do gênero “cordial”.
Rússia,China e Índia são economias continentais,assim como o Brasil.Como arquetípicas “Estado-nação”,estas sociedades experimentaram em algum ponto de sua História uma vocação por projetos Imperialistas,em que andam em par a violência social e a institucional (para possuir domínio global,você tem de possuir domínio absoluto interno, pensam os ditadores).
No entanto, há não muito sentido na idéia de BRICs quando os militares, o Estado e outros atores estratégicos são analisados na perspectiva deste vetor essencial do destino humano na história: a tecnologia.
O contexto estratégico,econômico e regulatório no Brasil (e em grande parte da América Latina) é principalmente resultado de um rebento da inteligência cívica e comunidades científicas ao invés do legado de agendas militares e nacionalistas utópicas de longo prazo.
Na emergente era da democrática, diversificação e “e-infra-estruturas” de rede ,a variedade tropical de desenvolvimento humano orientado pelo empreendedorismo científico, tecnológico e cultural no Brasil e América Latina mostra-se mais afim ao desafio histórico que agora enfrentamos com ansiedade - promover um processo evolutivo global em que padrões de organização, comunicação e sentido se tornem mais criativos, inovadores, dinâmicos e democráticos.
Este é o espírito da sociedade do conhecimento, esta é a cidadania baseada no conhecimento que aproxima os ideais emancipadores compartilhados por europeus e latino-americanos, seja entre a elite rica, seja na base da pirâmide econômica.
Grandes territórios e alta densidade demográfica são certamente a fundação para mercados vigorosos e investimentos de larga escala, mas isso é relevante para a dimensão tangível do desenvolvimento sustentável.
Os ativos intangiveis que agora nos desafiamos a identificar, mapear e processor utilizando a e-infraestrutura para ciência, saúde, educação, lazer e meio-ambiente não devem ser simplificados ou diminuídos por meio de uma uma sigla vazia.Vamos tirar esse “B” do BRICs e celebrar as promissoras convergências digitais entre a Europa, a America Latina e um planeta que se prepara para uma nova era da solidariedade humana global.
(*) Gilson Schwartz, economista, sociólogo e jornalista, professor no Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes, criador e líder do Grupo de Pesquisa Cidade do Conhecimento, Coordenador no Brasil do PRO-IDEAL Consortium sob o "Framework 7" da Comissão Européia (www.pro-ideal.eu). Discurso na seção de fechamento do IV BELIEF International Symposium, Auditório Mario Civas, Escola de Engenharia, Universidade de São Paulo, 17 de Julho, 2009 (www.beliefproject.org).
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